As Contradições Metabólicas do Capital

As Contradições Metabólicas do Capital

As Contradições Metabólicas do Capital:
Crise Ecológica, Envelhecimento e Extinção Humana

 

Este pequeno ensaio contém os elementos teóricos introdutórios para uma reflexão sobre as contradições metabólicas do capital que se manifestam no século XXI. Num primeiro momento expomos o conceito de “escassez social” que caracteriza o processo civilizatório do capital. Identificamos como manifestações da “escassez social”, a queda do salário relativo, a concentração de renda, o crescimento da nova pobreza urbana, a desigualdade social e o surgimento da nova precariedade salarial.

A “escassez social” encontrou no novo e precário mundo do trabalho sua expressão superior. Estas reflexões críticas originaram-se do nosso estudo [1] sobre trabalho e envelhecimento humano no século XXI (o que explica a ênfase na problemática do envelhecimento populacional que adquiriu dimensões globais principalmente a partir da década de 1980).

O envelhecimento populacional não se deve apenas ao aumento da expectativa de vida e aumento da longevidade humana, mas à queda da taxa de fertilidade. É isto que caracteriza o que alguns autores denominam de Segunda Transição Demográfica.

O novo metabolismo demográfico no século XXI deve ter impacto no crescimento do PIB das economias capitalistas e desdobramentos significativos no mundo do trabalho com a ampliação do gerontariado [2]. Entendemos por gerontariado, a nova camada social do proletariado na era do capitalismo global em sua fase de crise estrutural. Ele é constituído pelo contingente de trabalhadores “mais velhos” e idosos” altamente escolarizados, incluindo neles, a fração do precariado “mais velho”.

Diante do novo metabolismo demográfico, o capital expõe contradições metabólicas que se originam da sua incapacidade de enfrentar a problemática histórica do envelhecimento humano. Pelo contrário, ao reduzir tempo de vida a tempo de trabalho, o capital aprofunda o estranhamento social, salientando seu compromisso histórico com a “escassez social”.

Existe um vínculo sutil entre o desenvolvimento da “escassez social” do capital e a necropolítica adotada pelas forças de extrema-direita no cenário político deste século. Deste modo, o novo metabolismo demográfico expõe a crise humana e o sociometabolismo da barbárie que caracteriza o capitalismo do século XXI.

Ao lado do novo metabolismo demográfico, presenciamos outras fraturas metabólicas provocadas pelo capital: o novo metabolismo ecológico e o sociometabolismo da barbárie. Eles se manifestam por meio da crise ecológica e da crise de saúde humana.

O aquecimento global e a mudança climática; a pandemia do novo coronavírus e o retorno de doenças infecciosas e a degradação da saúde mental com a disseminação dos transtornos mentais, depressão e ansiedade, expõem as novas contradições metabólicas do capital na era da crise estrutural do capital.

Na verdade, vivemos num tempo histórico em que as “contradições fundamentais” se precipitam sobre as contradições metabólicas que, inter-relacionadas e imbricadas umas às outras, se tornam “limites como barreiras” que o capital não consegue ultrapassar, inaugurando assim, a temporalidade histórica de crise de civilização ou crise estrutural do capital.

Tendo em vista a emergência histórica que vivemos, torna-se importante expor, não apenas as “contradições fundamentais” do modo de produção capitalista, que tem no movimento tendencial de queda da taxa de lucro o seu fundamento essencial, mas expor àquilo que denominamos de contradições metabólicas do capital como modo de regulação do homem com a natureza.

 

 

 

[1] ALVES, Giovanni. Prometeu Envelhecido: Trabalho e Envelhecimento no século XXI, Projeto editorial Praxis, 2020 (no prelo).

[2] Diz a CBS News que o número de bebês nascidos nos EUA atingiu o nível mais baixo em mais de três décadas no ano passado, promovendo a atual “escassez de bebês” do país.  Especialistas dizem que a pandemia de coronavírus provavelmente reduzirá ainda mais os números. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) divulgaram dados preliminares na quarta-feira, indicando que agora as mulheres americanas devem ter uma média de aproximadamente 1,71 filhos ao longo da vida.  Isso significa que, mais uma vez, os americanos não estão tendo bebês suficientes para substituir as gerações anteriores. Com base em uma revisão de mais de 99% de todas as certidões de nascimento, 3,75 milhões de bebês nasceram nos EUA no ano passado, uma queda de cerca de 1% em relação a 2018 e o menor número desde 1985. Os nascimentos nos EUA caíram todos os anos desde 2007, exceto em um ligeiro aumento em 2014, disse o CDC (In: “U.S. births fall to a 35-year low”, CBS News. Disponível em: https://www.cbsnews.com/news/us-births-fall-record-35-year-low/?fbclid=IwAR2TAqik6MlMlZnLEw09XNODRZWPcGn4uXmh2QNjfjrAawip-FouGjwDiw. Acesso em 07/07/2020). A queda da txa de fertilidade é uma realidade global que diz respeito ao novo metabolismo demográfico do capital no século XXI. Isto deve acirrar as contradições metabólicas do capital que discutimos na Parte 2 deste livro.

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Giovanni Alves
Giovanni Alves
giovannialves@uol.com.br

Giovanni Alves é professor da UNESP-Marília, pesquisador do CNPq e coordenador-geral da RET (www.estudosdotrabalho.org). É autor de vários livros e artigos na área de sociologia do trabalho, globalização e reestruturação produtiva, entre eles “Trabalho e subjetividade” (2011) e “O Duplo Negativo do Capital: Ensaio sobre a crise do capitalismo global” (2018). E-mail: alvesgiovanni61@gmail.com

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